Literatura influencia formação da identidade infantil
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Qui, 02 de Junho de 2011 19:50

 

 

-Mas, vovó, o gosto pela leitura não vem da escola?

- Ah, não, minha filha. Os livros escolares são em geral tão sem graça com suas estopadas instrutivas, morais e cívicas, que as crianças saem da escola com horror do papel impresso, absolutamente convencidas de que todos os livros são maçadores. É justamente nas bibliotecas infantis, livremente organizadas, que as crianças tomam gosto pela leitura ou se libertam do horror ao papel impresso que adquirem nas escolas.


Depois da pergunta de Narizinho, Dona Benta deu logo a resposta que muitos professores ouviriam com o nariz torcido de Emília. Hoje, 66 anos depois que esse diálogo foi escrito e lido por Monteiro Lobato na inauguração de um busto em sua homenagem, ainda se discutem propostas de escolarização da literatura.

Na UFSC, pesquisadoras como Luana von Linsingen estudaram questões que se vinculam diretamente ao papel da literatura infantil  no desenvolvimento e no aprendizado das crianças. Em sua dissertação de mestrado, a autora abordou a literatura infantil no ensino da disciplina de Ciências e chegou a conclusões instigantes. Ao analisar uma coleção de livros infantis com temas relacionados principalmente à Biologia, foi possível fazer uma série de reflexões, inclusive sobre a capacidade efetiva de a literatura didática ensinar e transmitir conhecimentos. Nesse caso, o papel do professor adquire uma importância fundamental.


Para tornar mais efetiva a aprendizagem das crianças através da leitura, se faz necessário nas escolas a presença de educadores capacitados para mediar a relação da criança com o livro, uma tarefa bem mais complicada do que parece. Um dos motivos é a falta de uma preparação adequada por parte destes educadores, como atesta a pesquisadora Eliane Debus, que ministra a disciplina Literatura Infantil no curso de Pedagogia da UFSC.  “Muitos professores tem uma visão muito utilitarista da literatura, a literatura apenas na escola. O mediador não pode se preocupar apenas em passar um conteúdo, mas também em criar o gosto pela leitura nos seus alunos” .


Outra questão é definir o tipo de literatura e o momento em que será usado. Há professores que não incluem nas suas aulas o incentivo à leitura lúdica e utilizam a literatura apenas com caráter didático, como único eixo que norteia a inserção de livros infantis na escola. Na visão de Luana von Linsinger, porém, a literatura não deve ser usada na disciplina de Língua Portuguesa, por exemplo, apenas como base para ensinar gramática, gêneros textuais e algo como interpretação de texto. Para a professora, o papel da leitura vai muito além disso. “É essencial dar a ênfase necessária a outro valor da literatura, que muitas vezes é deixado de lado: o da formação da identidade”. A fábula, gênero amplamente explorado na literatura infantil, figura como um formador de identidade nesse contexto, já que os diálogos nela construídos são essencialmente simbólicos. Ao interpretá-la, a criança trabalha com a construção e revisitação de sentidos, de formação de significados.


E seja falando de literatura infantil, de ensino através da literatura ou de fábula, é impossível não voltar a Monteiro Lobato. O escritor foi capaz de fazer o que Eliane Debus considera como “mágico”: embora tenha produzido livros com caráter curricular, tais como “Emília no País da Gramática”, suas obras reuniram elementos fantásticos e didáticos em um formato sem precedentes. Em  “A Chave do Tamanho”, por exemplo, Lobato usa o olhar de Emília para transportar o leitor ao mini e micro universo biológico, quando, na história, a personagem fica do tamanho de um inseto e passa a enxergar o mundo por outra perspectiva. Neste sentido, a obra de Lobato assume duplo valor ao ensino de Ciências, pois incita a observação, a concentração e a interpretação de um ambiente, além da busca pelas relações entre os fatores bióticos e abióticos e o incentivo à prática do exercício de "olhar além do umbigo", de despojamento do egoísmo natural entre crianças e adolescentes.


Leitura didática : o ‘terror’ da criançada


Na escolha do uso deste ou daquele tipo de livro também vale lembrar que, como Von Linsinger afirma, “para a criança o livro didático é uma chatice a priori.” Naturalmente, é difícil para o estudante ser obrigado a assimilar a informação contida num material durante uma leitura que foi imposta por alguém.  Além disso, é no livro didático que estão as questões que ele tem que realizar em casa, como tarefa, quando gostaria de estar fazendo outras atividades. “Uma das grandes barreiras do livro didático é que ele já vem ao aluno como material forçado. Não foi algo que ele escolheu, foi algo que a escola e o professor escolheram e que ele terá de engolir”, explica.


Para a pesquisadora, a utilização de livros paradidáticos – caracterizados por uma linguagem coloquial com a presença de diálogos e elementos como o humor -  é uma ótima alternativa para que o gosto pela leitura seja adquirido desde a infância. “Não se trata de um texto simples, esvaziado de conteúdo relevante; é um texto mais acessível. Com isso, desarma-se a resistência original do aluno, que acaba se tornando mais atento ao que está sendo informado”. Von Linsinger acredita que a escolha, junto com a destituição de um preconceito para com a leitura de um conteúdo visto como "de escola", auxilia o processo cognitivo do estudante.


A questão central do problema é que, para aprimorar a utilização do livro na escola, é importante que haja pesquisa nessa área - na UFSC, não há nenhum grupo de pesquisa que aborde sistematicamente o tema. Eliane Debus afirma que, no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Língua portuguesa e Alfabetização (NEPALP), ela é a única que foca essa temática, e defende que deveria haver mais espaço para estudos mais aprofundados do assunto na Universidade.


Para saber mais:

*Livro “Monteiro Lobato e o leitor, esse conhecido”, de Eliane Debus

*Dissertação de Mestrado “Literatura infantil no ensino de Ciências: articulações a partir da análise de uma coleção de livros” de Luana von Linsingen. http://www.tracaletras.com.br/mestrado/linsingen.2008.integral.pdf

Última atualização em Ter, 05 de Julho de 2011 02:42
 

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Comentários  

 
0 #1 RE: Literatura influencia formação da identidade infantillaurinda augusta de 18-06-2012 13:22
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